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  • Paulo Rodrigues

Semear um Sonho

“Pelo prazer doce de dar, pelo prazer doce de sonhar, Minino Branco escreveu esta história que só quem Sonha, nela pode acreditar...”




Minino Branco voltava novamente ao local dos coqueiros. Já tinha saudades de sentir o vento brincando nas folhas grandes daquelas palmeiras que com a sua copa fazem uma circunferência perfeita.

Minino Branco estava perto do mar. Um mar que ele não conhecia mas que só por ser mar, já dele, ele gostava.

Minino Branco tinha o corpo queimado pelo sol. Tinha queimado muito depressa na viagem que fazia por aquele país que tinha coqueiro e que ele não conhecia. E por ter queimado tão rapidamente a sua pele branca, ela estava a cair deixando aparecer já a pele que ele na realidade tinha, não branca, não preta, mas da cor de café como ele tanto gostava.

Minino Branco sempre se achou africano, sempre se sentiu mais africano que europeu como tinha nascido.

Minino Branco neste momento não estava na Europa nem na sua mãe África. Minino Branco estava noutro local, onde o seu sonho, a sua vontade de voar, o seu desejo de conhecer e aprender o tinham conseguido transportar.

Mas naquela praia de areia com coqueiro, Minino Branco o mar salgado provou e ao prová-lo recordou-se tanto das suas histórias d'África, onde a sua alma tinha renascido, onde tinha encontrado a sua essência.

De repente fechou os olhos e voltou novamente a mercado do Ponto onde toda a cor em forma de fruta e hortaliça existia, onde Dona Rosa, a mais gorda da gordas do mercado do Ponto, velha sabida e conhecedora, o tinha desafiado e ele muito bem se desenrascado.

Minino Branco fechou os olhos com mais força ainda e conseguiu mesmo sentir de novo o cheiro da terra molhada de São Tomé, da gravana e do cacauzal a dar fruto. Relembrou em todo o seu corpo as caminhadas que fez e as aventuras em que andou com seus amigos daquela terra bem-dita que poderia ser um pedacinho do paraíso.

Minino Branco respirou fundo e transformou o ar que inspirava naquela terra que não conhecia em aromas doces de fruta pão, de peixe fumo, de calulu, de búzio da terra e do mar, de gente de sorriso aberto simples, pobre, honesta e digna.

Minino Branco recordou as conversas que teve e os momentos de silêncio que partilhou, as fogueiras que viu nascer e as crianças nuas que viu brincar, sorrir e crescer.

E Minino Branco estava agora nesta terra longe, onde não conhecia gente, onde simplesmente podia contar apenas consigo próprio, com suas experiências e com sua imensa vontade curiosa de sonhar, conhecer, aprender e viver.

E que força isso tudo dava. Pessoas diferentes, locais diferentes mas muitas coisas que ele conhecia e que chamava pelo nome, que reencontrava ali como suas velhas conhecidas, suas especiais amigas.

E uma delas era o seu coqueiro que lhe dava abrigo naquela praia onde o mar era na mesma quente e salgado como o mesmo mar que, em São Tomé, o tinha abraçado.

Minino Branco abriu os olhos e olhou a jeito de ver. O sol já se punha ao longe e os vermelhos da sua cor começavam a se confundir com os azuis-escuros daquele mar quente e calmo. Inclinou a cabeça para cima e lançou o seu imaginar sobre o coqueiro que ainda abanava as folhas, brincando com resto de vento, que ainda era vento de dia, mas de dia quase passando a noite.

E os olhos de Minino Branco deixaram sair mar salgado das suas órbitas, não porque estivesse triste, mas porque aquele momento lembrava-lhe outro muito parecido que na sua imaginação, numa outra ilha, num outro local, poderia ter acontecido.

Incrível como a imaginação de Minino Branco voa e como ele não quer nunca que ela deixe de voar. A sua imaginação é a extensão da sua alma, que o completa, que o faz ser diferente, que o faz conseguir sempre seguir em frente, porque a sua imaginação lhe diz persistentemente que algures no caminho, ao virar de mais um coqueiro pode estar o que ele procura. Exactamente o que procurou de outra forma, envolvendo coqueiro e ilha perdida, brincado com calor e flor, gritando partilha com amor, felicidade, imaginar, entrega, confiança e muito sonhar.

Ainda olhando para cima, para a folha do coqueiro amigo, igual e irmão doutro coqueiro que o conhecia de outro local, Minino Branco perguntou sem esperar resposta nenhuma. Perguntou apenas por perguntar, perguntou simplesmente se aquele coqueiro sabia o que Minino Branco estava a imaginar.

Não esperando resposta nenhuma, o seu coração lançou-se a sonhar a história mais impossível de acontecer, onde apenas nada poder-se-ia prever, onde apenas a poesia poderia explicar, onde a ciência nunca axiomas poderia sequer tentar formular.

E imaginando a imaginação, deixando sorrir e voar o seu coração, Minino Branco deitou-se na pedra ainda quente do calor que naquele local era tão presente como o que sentira no outro lugar, exactamente por baixo de um coqueiro que brincava com vento ao pé do mar.

As folhas roçavam umas nas outras e, brincando com o vento, começaram a formar sentidos, a esboçar sons. De repente Minino Branco podia perceber e quase não acreditava no que estava a acontecer. Coqueiro falava e Minino Branco entendia aquele palavreado, formado de sons de vento de mar brincando com folhas, dançando ao som de pensamento de um Minino Branco que se atrevia a sonhar.

- Minino Branco, há mais de trinta anos que sou coqueiro e que guardo esta praia. Sempre estive calado vendo por aqui passar todo o tipo de Minino e Minina, grande, pequena, brincando, chorando, fazendo amor ou simplesmente estando. Mas nunca ninguém como tu por aqui tinha passado. Nunca ninguém tinha a falar, me imaginado. Coqueiro não fala. Coqueiro dá cocos e sombra, coqueiro abana e dá ambiente. Toda a pessoa sabe que coqueiro não pensa, que coqueiro não é gente. Mas tu, Minino Branco, tu és Minino diferente. Tu atreveste-te a imaginar que coqueiro sonha, pensa e que coqueiro sente.

Minino Branco nem queria acreditar no presente que lhe dava aquele coqueiro naquele longínquo lugar. Minino Branco sabia que tinha dom, que falava com as plantas, que percebia as suas vontades e que conhecia coisas que ele só sabia como verdades. E através do coqueiro que naquele momento lhe dava carinho, que ele a brincar imaginava o ter posto a falar, não mais do que tinha descoberto que coqueiro até fala a quem para o pé dele vai estar, de coração aberto tentar voar. E coqueiro continuou...

- Vou-te contar história, história que guardo há muito tempo, história única, história que para a maior parte das pessoas apenas será percebida com simples vento...

Um coquinho aqui um dia chegou. Via-se que por muitos mares tinha viajado. A esta praia esse coquinho veio descansar, e o mar, junto com as ondas e marés, aqui ao meu lado conseguiu-o plantar. Minino Branco não reparou porque dele ainda não se aproximou. Mas agora deixe-se aí na pedra ficar. Só dele vai aproximar-se depois de ouvir a história que ele me contou e que eu a si, Minino Branco que ousa sonhar, a si vou eu contar.

Coquinho chegou e muito cansado vinha. Contou entre soluços de água salgada que de uma ilha distante tinha partido numa noite, mais ou menos como esta, pelas mãos de alguém que antes de ao mar o mandar lhe tinha dito que nunca deixasse de sonhar. Era ainda coquinho muito jovem, sem experiência e sem nenhuma referência ou vivência. Não percebeu porque ao mar o mandavam, porque à força o queriam por a viajar e porque lhe diziam para nunca deixar de sonhar.

Mas o coquinho teve que ir numa maré que não tinha volta. Sabia- se sobrevivente, que nenhuma tempestade o deitaria ao fundo, que manter-se-ia à superfície do mar, sempre. Mas o coquinho tinha medo, pois navegava sem rumo, não sabia o que poderia esperar, onde poderia chegar...

Minino Branco ouvia sem sequer ousar falar. Aquela história parecia- lhe linda, pois falava de sonhar. E o coqueiro grande continuou...

- Minino Branco, quando este coquinho a esta praia chegou e ao meu lado foi plantado, nada mais como estava ficou, todos nós ficamos esperançados. Antes de raízes criar, ele contou-nos os encontros que teve na sua viagem, das conversas que ocorreram com baleias, espadins, golfinhos e tubarões. Com alguns sorriu, com outros chorou, uns tentaram-no comer, outros simplesmente o ignoraram e deixaram-se ir sem sequer um sorriso lhe dar, sem sequer um olhar agradecido lhe oferecer.

É que este coquinho que hoje é árvore grande aqui ao meu lado, quando encontrava alguém na sua viagem, dizia-lhes para sonharem sempre, para acreditarem que para além do próximo coqueiro o sonho pode se realizar, que apenas é necessário acreditar, ser persistente e caminhar até esse sonhado lugar.

Minino Branco ouvia a história que lhe parecia cada vez mais como sua conhecida, que lhe recordava alguma coisa há muito na sua memória desvanecida. E voltou os olhos a fechar. A noite caía e até o mar parava ali aos seus pés, tal como a areia que no entrar da noite já arrefecia, nada murmurava pois a história continuava e a todos naquele momento dava vida e ouvi-la apetecia.

Minino Branco estava a adorar aquele momento, ouvindo aquele coqueiro que já chamava amigo, aquela exacta história a contar. E ele continuou, perfeito naquele lugar...

- As barracudas do coquinho flutuante e viajante gozaram dizendo que sonhar não apanhava peixe e que sonhar não fazia nadar, dele se aproveitaram para as suas histórias ouvir, delas tudo de bom subtrair para depois dele apenas gozar e as suas histórias de sonhos tentar destruir e mesmo desmanchar. Mas o coquinho fez- se forte sempre guiado pela voz que o tinha mandado para o mar, que lhe tinha dito que no sonhar está o poder de viajar, dos outros ajudar, aos outros levar a força, a maior força que está esquecida, a força de amar. E, Minino Branco, este coquinho foi visto como teimoso por uns, estúpido por outros e idealista pela grande maioria. O conselho das sardinhas reuniu-se um dia para o tentar convencer que no sonhar estava apenas nada e que ele deveria simplesmente deixar-se levar pela maré que o embalava, indo assim e simplesmente à sua sorte, ao seu destino. E este coquinho sofreu muito, Minino Branco. Ele mesmo mo disse.

De facto as primeiras águas que regaram as suas pequenas raízes quando aqui foi plantado pelo mar e pela maré, foram as suas lágrimas. Alimentou-se de si mesmo nessa fase nova de novo nascimento e por isso, depois quando o vires vais ver como está lindo e forte.

Minino Branco sorria de olhos fechados imaginando aquele coqueiro que já fora coquinho e que deveria estar ali ao seu lado. Mas não se mexeu. Queria ouvir o resto da história, o resto do conto que aquele coqueiro adulto lhe oferecia naquele exacto local, naquele especial e por ele sonhado fim de dia.

- Nem a multidão das sardinhas todas juntas o convenceram. Lá por elas fazerem desde sempre a mesma coisa, não queria dizer que entre elas não poderia existir uma sardinha sonhadora, uma sardinha que dissesse basta, que não tinham que ir sempre para o mesmo lado, que talvez arriscando mudar, da monotonia conseguissem sair, num novo mundo conseguissem entrar e viver melhor e, sendo diferentes, o mundo das sardinhas com sonho transformar. E o coquinho disse-me que tentou e para essa sardinha imaginária falou, até que uma nova maré para outro local o levou, deixando-o novamente só, mas sempre disposto a o seu sonho partilhar.

Foi tão bonita a sua chegada a esta praia, Minino Branco. Via-se que era côco vindo de longe. Não falava como os coquinhos daqui. Falava de outros mundos que ninguém conhecia, dizia que outras coisas existiam, que mais coisas se faziam e que o mundo não era apenas o que desta praia se via... Falou do seu encontro um dia com um polvo desanimado, que em combate seis dos seus braços tinha perdido e que não arranjava esperança nem força para esperar que eles crescessem de novo. Repara Minino Branco, um coquinho navegante a falar com um polvo que, por ter perdido seis dos seus oito braços, achava que iria desaparecer

porque simplesmente não conseguia naquele momento realizar o que estava habituado a conseguir fazer. Coquinho disse-me que explicou-lhe que deveria esperar, que os seis braços iriam novamente crescer, que só tinha que sonhar isso a acontecer, e entretanto arranjar outra brincadeira possível de apenas com dois braços realizar. Nunca desistir e sempre sonhar. Impressionante o que aconteceu. Não é que o polvo de seis braços perneta aprendeu a dançar valsa pois para isso apenas dois braços precisava.

E embalado nesse aprender o tempo passou e de repente os oito braços lá estavam e novamente o polvo podia voltar a fazer o que sempre tinha feito e dai para a frente sempre faria. Mas por ter sonhado, maior seguia. Era agora único polvo que sabia dançar valsa e isso só tinha acontecido porque tinha tido dificuldades e apenas dois braços um dia.

Mais histórias o coquinho a nós contou quando cá chegou. Coisas fenomenais e impressionantes onde o sonhar foi sempre a força para o navegar, onde a persistência foi a aliada da vontade de dar e viver, de provar que só sonhando se consegue especial ser, que só sonhando se navega, só sonhando se arrisca a deixar o mundo melhor do que o encontramos e do que hoje nos está a parecer.

Minino Branco quase dormia com esta história. A sua alma já voava entre sardinhas estúpidas, barracudas horríveis, polvos dançantes e baleias pachorrentas... Não conseguiu mais ficar calado e sem abrir os olhos, pois tinha medo de terminar o encantamento, perguntou:

- Há quantos anos este coquinho aqui chegou?

- Anos? Penso que há pelo menos dez anos. Deve ser isso. Sabes Minino Branco estas histórias que me contou, contou-mas antes de ter sido pelo mar e pela maré plantado. Desde que criou raízes ficou calado. Nunca mais disse nada e tem-me desde sempre preocupado.

Minino Branco levantou-se. Estava quente e sentia calor. O seu corpo sabia o que ia acontecer. Tirou a camisa e expôs o seu peito à lua que tinha substituído o sol no último acto desta sonhada história. Devagar contornou o coqueiro contador de contos e à luz do luar aproximou-se descalço, aproximou-se muito devagar. Olhou novamente com olhos de ver e viu o coquinho agora coqueiro, que enquanto Minino navegante sonhava e agora como adulto com raiz funda apenas vivia calado e parado. Era bonito e forte mas Minino Branco sabia muito mais. Tinha a experiência de muitos coqueiros ter conhecido noutra ilha há cerca de dez anos atrás.

E devagarinho aproximou-se, não sem uma lágrima no canto do seu olho surgir, e naquele tronco forte então, com as suas mãos sonhadoras, tocou. Todos os outros coqueiros se voltavam não acreditando no que estava a acontecer, o que estava no coqueiro outrora sonhador a aparecer.

Minino Branco encostou a sua cara ao tronco do coqueiro e disse alguma coisa. Ninguém ouviu. Apenas um ser muito pequenino percebeu. Mas o facto é que o coqueiro outrora sonhador estremeceu e com um forte abanar das suas folhas de uma impressionante quantidade de aranhas e bichos repelentes se libertou. O seu verde pareceu mais verde à luz da lua e voltou a brilhar. A lua desde então jura que viu pela primeira vez um coqueiro sorrir e com coquinhos a piscar.

Apenas ouviu-se do coqueiro renascido:

- Obrigado. Estava necessitado. Tens razão. O sonho deve continuar a ser sempre sonhado. Já tinha saudades tuas Minino Branco. Já tinha tantas saudades tuas...

Todos os coqueiros queriam saber o que Minino Branco tinha dito ao coqueiro renascido, agora novamente sonhador. Viam-no também a ele, Minino Branco, resplandecente, feliz, como nunca tinham visto ninguém, como não pensavam existir gente. Ele, no seu corpo de adulto, sorria como criança, como petiz...

Mas apenas um ser tinha ouvido o que Minino Branco ao coqueiro então calado tinha sussurrado. Era um caranguejo pequenito que por acaso naquele local estava e que agora gritava como um doido aflito.

- O coquinho com missão de dar e ensinar a sonhar e que foi ao mar lançado por alguém, foi pela mão do Minino Branco que o mar conheceu. Foi isso que ele lhe disse quando o seu tronco abraçou, que estava feliz por de novo o encontrar depois de dez anos, depois de tanto mar a os separar. Que o tinha lançado ao mar porque acreditava que o sonho acontecia, que um simples côco sonhador podia fazer a diferença e que não importava o que sardinhas tontas, barracudas más ou gente estúpida acha ou pensa...

Que ele, Minino Branco, ali tinha encontrado parte do seu sonho e que por um dia o coquinho ter passado a coqueiro e ter criado raízes e crescido não deveria deixar de ser criança, ser coquinho e sonhar sempre a diferença e ter esperança. Se ele por ter raízes não podia ir ter com os outros e levar-lhes o sonhar, que não se esquecesse que o mar e a maré outros agora trás a si e talvez esses necessitem de re-aprender a voar.

E o mais incrível gritava o caranguejo desvairado, é que o Minino Branco disse que até ele tinha ao pé do seu coquinho vindo, agora coqueiro, para voltar novamente a imaginar e sonhar. Ele, Minino Branco, outrora criança e agora adulto, ele que o tinha mandado pelo mundo ensinar o sonho, agora partilhava o sonhar com ele reforçando a vontade de ambos de voar.

E ele tinha conseguido isso pois Minino Branco sonhava mais uma vez, pois nesta história, nesta história de coqueiros falantes e polvos dançantes, só quem sonha pode acreditar...

Caranguejo maluco que não se calava... Dançava e já falava de viajar até outra ilha para espalhar o sonhar como forma de crescer e sempre viver, mesmo com raízes à vida e a um local. Gritava, género filosofo que só sabe andar de lado, que:

- Sonha quem nunca se esquece de ser criança, quem consegue sempre aos outros, sem esperar nada em troca, dar...

Pelo prazer doce de dar, pelo prazer de sonhar, Minino Branco escreveu esta história, esta história que só quem sonha e é criança, nela pode acreditar...


FIM


Paulo Rodrigues

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